


























A
obra de Pontes de Miranda contribuiu de tal forma para o enriquecimento da ciência
jurídica neste país, que sua produção colocou o Brasil
no contexto universal do pensamento jurídico como nação respeitável
no campo do Direito. A filosofia e a lógica o fascinavam, colecionava corujas
e conhecia bem os clássicos, o que demonstrava claramente o seu refinamento
intelectual.
A vida de Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda que nasceu em 23 de abril de
1892 em Maceió - AL, e passou sua infância no Engenho do Mutange,
neste estado, e que pertenceu à sua família, foi sempre repleta
pela busca do saber a determinação racional de quem sabia o que
queria.
O sábio conselho de uma tia fez com que abandonasse a paixão
pela matemática para ingressar na Faculdade de Direito do Recife, onde
se bacharelou em 1911, com apenas 19 anos de idade.Mestre ou nas Letras aos 20
anos, com o ensaio filosófico "A Moral do Futuro". Mas, já
aos 12 anos, escrevia poesias para um Jornal de Maceió, da época.Em
1920, tirou o primeiro prêmio de erudição, com o Livro "A
Sabedoria dos Instintos" e, três anos depois, em 1924, tira Pontes
de Miranda o prêmio Pedro Lessa da Academia Brasileira de Letras, com o
Livro "Introdução à Sociologia Geral".Como jurista,
dedicou-se totalmente ao Direito, sendo a Advocacia de Pareceres a sua forma de
contribuir ao justo. Desempenhou vários cargos na magistratura, sendo também
desembargador, embaixador o chefe de missões diplomáticas. Também
chefe da Delegação do Governo Brasileiro à XXVI Sessão
da Conferência Internacional do Trabalho, reunida em Nova York, em 25 de
setembro de 1941.Pontes de Miranda, com um total de oito tratados, tornou-se o
maior tratadista de todos os tempos. Entre as diversas obras destacamos o "Tratado
do Direito Privado", em 60 volumes, que começou a aparecer em 1955,
e que concluiu em 1970. É a maior obra universal escrita por um só
homem.Segundo as derradeiras palavras de Goethe, "Luz, luz, mais luz",
Pontes de Miranda, ao longo de sua vida, não fez outra coisa senão
trazer luz e mais luz ao campo das Ciências Jurídicas.Glória
das letras jurídicas nacionais, morre Pontes homem, aos 22 de dezembro
de 1979, ao término de mais uma década. Mas sua morte não
o coloca no esquecimento, e sim em destaque.

PONTES
DE MIRANDA SUA VIDA E OBRA



Nessa
mesma época lançava sua 1ª obra jurídica, À Margem
do Direito (Francisco Albes & Cia., Rio), ensaio de psicologia jurídica,
publicado em 1912. Mas foi em 1922, que Pontes de Miranda veio a ser conhecido
nacionalmente pelos cultores do direito, quando publicou uma de suas mais importantes
obras - O Sistema de Sciencia Positiva do Direito (Jacintho Ribeiro dos Santos,
2 volumes), cuja última edição foi ampliada para 4 volumes.Trata-se
de verdadeiro monumento da cultura jurídico filosófica"Ao Brasil
na comemoração do centenário de sua independência Política
- este tributo de dez anos de esforço e de sacrifício que até
então lhe pôde dar o mais humilde dos seus filhos, empenhado em conciliar
o amor da Pátria com o amor da Humanidade e movido pelo intuito de concorrer
para que se lhe guiem os destinos no sentido das leis sociais e das verdades científicas".
No ano seguinte, a obra se encontrava totalmente esgotada.Nesta obra, Pontes de
Miranda constrói a Ciência do Direito. No Capítulo IV, que
trata da morfologia social, ele desenvolve a sua teoria dos círculos sociais.
Para ele, o direito é unicamente indicativo, havendo entre as leis físicas
e jurídicas apenas uma diferença de grau. Por isto a ciência
do direito não é somente ciência empírica da civilização,
não se serve apenas do método histórico e não tem
por única preocupação os valores jurídicos; é
também ciência da natureza, que estuda realidades físico-psíquicas,
forças sociais processos biológicos da vida em comum.A obra teve
repercussão assustadora. Do Prof. Ernest Zitelmann, da Alemanha, recebeu
Pontes, em longa carta, as seguintes palavras: "Tenho o vosso presente como
honra especial e distinção... Além disso, chega-se ainda
a alegria, que experimentei, de poder estudar a vossa obra".O Prof. Roscoe
Pound, da Universidade de Harvard, disse que não conhecia até então,
o que representava obra tão profunda ou sistema verdadeiramente científico
como o que Pontes havia produzido.Do precursor de Einstein, o matemático
e físico Joseph Petzoldt, o mestre recebeu em uma longa carta, a seguinte
observação: "Fizestes-me grande alegria com a remessa da vossa
obra assombrosa. Digo-vos, por isso, o meu mais profundo agradecimento. Estou
surpreso, não só de haverdes profundo agradecimento. Estou surpreso,
não só de haverdes perlustrado a extraordinária abundância
da literatura cientifica dos domínios mais deferentes, como também
difíceis, como o da teoria da relatividade, e fico muito contente de poder
expressar-vos toda minha maior simpatia pelo que concerne ao vosso ponto de vista
biológico. Mui particularmente, estou eu de acordo com terdes feito fundamento
da vossa teoria o princípio da determinação única
(Eindeutigkeit) e da estabilidade".Para escrever esta obra em quatro volumes
(2ª ed.), o mestre trabalhou com exatamente 1.618 outras obras.No lançamento
da obra, durante banquete que lhe foi oferecido, Clóvis Beviláqua
o considerou como um "verdadeiro mestre do direito".
PONTES
DE MIRANDA E SEU TRABALHO
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Pontes
era universal. Se era um humanista incomparável, não significava
que não conhecesse amiúde cada ciência em particular. Advogado
de brio durante 12 anos, parecerista sagaz, jornalista de estirpe, sociólogo
ímpar, filósofo de raro discernimento, magistrado sem vacilação,
poeta de coração sublime, diplomata por força das circunstâncias,
professor por honrarias recebidas, matemático de incrível raciocínio
concatenado, físico de dedicação sacerdotal e acima de tudo
jurista inigualável pelo ilibado saber, pela precisão, pela riqueza
dos fatos que invocava, pelo conhecimento de história e pela retidão
aos fatos que sua doutrina possuía.Muitos
são os seus discípulos, dentre os quais destaca-se o hegeliano Djacir
Menezes, que, em 1934, fazia publicar A Teoria Científica do Direito de
Pontes de Miranda, que em 1945 foi lançado no México em espanhol,
e que ao lado de O Problema da Realidade Objetiva (2ª ed. de 1972) faz a
devida justiça ao mestre Pontes como pensador.Pontes integrou, ao lado
de Evaristo de Morais, Maurício de Lacerda, Nicanor do Nascimento e outros
o chamado "Grupo Clarté", liga socialista que apareceu em 1919
e que em 1921 veio a lançar a revista do mesmo nome. O grupo era inspirado
no movimento que surgiu na França, liderado por Henri Barbusse, como órgão
cultural do Partido Comunista Francês.Em sua mocidade foi fortemente influenciado
por Friedrich Nietzche (1844-1900), Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e Henri Bergson
(1859-1941).De Emerson herdou o individualismo moral. De Bergson, a nova epistemologia
baseada na consciência adquirida pela cultura que revela as conexões
que existem entre a vida orgânica e a vida social e psíquica. Pontes
acredita que a obrigação moral, ao contrário do que pensava
Kant, não resulta de um apriori mais sim, de uma necessidade da própria
vida vivida.Por outro lado, o ideal do super-humanismo está subjacente
em sua obra. Grande parte de sua filosofia aparece em A Sabedoria dos Instinctos
e em A Sabedoria da Inteligência, de 1923. A filosofia para Pontes, deveria
servir ao homem como caminho à libertação e como trampolim
à verdadeira felicidade. Esta nada mais é do que a serenidade do
espírito que provém da consciência de que é ao homem
que compete obter o domínio de si próprio. Este outros domínio
exige a libertação total do jugo das pseudo opiniões e a
conquista do conhecimento verdadeiro e seguro da realidade e da posição
do homem nela.Embora admirador do realismo e do idealismo, refletiu sobre as obras
de Ernest Mach, Alfred (jules) Ayer, Richard Avenarius, Carnap, Otto Neurath e
Eduardo Wilhelm Pflüger, para então introduzir no Brasil o Neopositivismo.
Mas seu pensamento era autônomo, como não-irrealista em filosofia.
Preocupava-se não com a epistemologia, mas sim com a metodologia. O mês
de maio de 1925 o revelou como matemático e físico. Em um artigo
datado de 6 daquele mês, Pontes discorreu sobre Espaço-Tempo-Matéria,
para analisar a Teoria da Relatividade que ele e Manuel Amoroso Costa divulgavam
no Brasil. Tal tese foi apresentada naquele ano ao Congresso Internacional de
Filosofia de Napoli. O curioso é que, quando Einstein chegou no Brasil
em 1925, apenas quatro cinco homens conheciam o seu pensamento, e entre eles se
encontrava Pontes. Já mantinham correspondência, e sua estada em
nosso país, deu a Pontes a oportunidade de discutir as implicações
metafísicas da Teoria da Relatividade, mas como nota do físico Caparelli,
da Universidade de Pisa, cada um acabou mantendo o seu próprio ponto de
vista.Enquanto os expoentes que animavam o positivismo lógico vinham da
matemática, da física, da biologia, Pontes se interessava antes
de tudo pelo Direito e pela Sociologia. Daí porque se pode afirmar sem
erro, que a versão brasileira do neopositivismo dado por Pontes é
autônoma, original e pessoal. Pontes não pertenceu a nenhuma escola,
pois é a própria escola.Conhecia Husserl, Heidegger, Einstein, Wittgenstein
entre outros.Seu espírito foi analítico e sintético ao mesmo
tempo. Queria organizar tudo, desde seus fichários, sua biblioteca de mais
de cem mil obras, entre monografias e artigos, até a política, a
sociedade e a vida. 

Como
sociólogo, sua obra, fiel aos princípios da objetividade científica,
se coloca no centro da sociologia brasileira. Em A Margem da História da
República, de 1924, organizado por Vicente L. Cardoso, aparece Pontes ao
lado de Oliveira Viana, Alceu de Amoroso Lima e outros. Seu discurso sobre o Brasil
era de unidade.A obra de Pontes sobre Sociologia, é o que de mais
autêntico se produziu no Brasil, neste campo. A sua Introdução
à Sociologia Geral, que recebeu o Prêmio da Academia Brasileira de
Letras em 1924, é algo que espanta pela coragem com que expõe o
seu pensamento, numa época em que outra era a concepção da
sociologia. Maravilhosamente escreveu: "O sociólogo vê, observa,
e procura a visão mais objetiva, que lhe seja possível, das coisas
da vida. Não se instala no interior das correntes, nem dos fatos, não
participa deles, não os vive. Certamente, como homem, os fatos sociais
também nele se passam, mas isso não impede a objetividade da exploração,
não o obriga a versões subjetivas dos acontecimentos. Como cientista,
nenhum dos contemporâneos que se colocam dentro dos movimentos pode dizer
que ele é um deles, se bem que seja movimento social a própria propagação
dos estudos psicológicos. Posto que cada vez mais se consiga em tal caminho
de objetivismo, nenhuma escola sociológica apresenta as precauções
e o método que se reivindicam para a orientação dada à
nossa Obra".Era o sociólogo da liberdade, e basta a sua luta pelo
habeas-corpus travada desde 1916 para justificar tal assertiva. Tal luta está
corporificada em seu História e Prática do Habeas-Corpus. Foi a
primeira obra no mundo a versar o instituto sob o ângulo do direito comparado.
Combateu o arbítrio e todo sistema político que restringe os direitos
do cidadão. Recusou o convite de Getúlio Vargas para ser embaixador
do Brasil na Alemanha, por não concordar com a Alemanha de Hitler.Em 1933,
Pontes preocupado com as condições de vida dos indivíduos
em sociedade, questionou a finalidade do Estado. Estará ele cumprindo com
o seu escopo ou está em crise? Qual é a participação
do capitalismo neste estado de coisa? Constata que nesse século, em todos
os lugares, a estrutura social está abalada. Nem aos menos atilados isto
passa despercebido, à vista da crise econômica política e
social que cada vez se torna mais acentuada.Em seu livro Os Novos Direitos do
Home (Editorial Alba Limitada, Rio, 1933) Pontes combate o capitalismo e critica
a democracia até então existente: Propõe um Estado de "fins
precisos" onde sejam previstos e assegurados pela Lei Maior, os cinco Direitos
Fundamentais do ser humano que são: direito à subsistência,
direito ao trabalho, direito à educação, direito à
assistência e, finalmente, o direito a um ideal.A observância desses
cinco direitos põe o Estado, numa linha socialista, pela qual marchará
sabendo como vai e para onde vai, num processo perspectivo, que tirará
a razão de ser de todo e qualquer movimento catastrófico. Fora disto,
não há como evitar a Revolução.No Estado Ideal pontesiano,
o Socialismo é que deve envolver a Democracia, e não esta, o socialismo.
Deve-se ter uma República Socialista, e não República em
que um dos partidos seja socialista. Em vez de ser a democracia o suporte em que
se apoiam o socialismo e outros partidos, o suporte é o socialismo e dentro
dele (nunca fora dele) é que se exerce e pratica-se a atividade opinativa.


Epicurista,
amou a vida intelectual numa felicidade que durou mais de 70 anos.Mas amou também
a vida mundana, as recepções, a mesa farta, o bom vinho, a comida
requintada e simples (desde o churrasco gaúcho até as massas árabes),
o convívio social rodeado de grandes personalidades e os prazeres que a
estética dá aos olhos.Adorava levar seus convidados a comer o melhor
churrasco do Rio que só na "A Carreta" era servido, segundo ele.
Ia à boate Hipopotamus, como também era assíduo freqüentador
do Clube Caiçara na Lagoa Rodrigo de Freitas. A música também
era estimulante do prazer. Apreciava desde os clássicos (Wagner, Beethovem,
Mozart) até a mais jovem música pop, pois todas eram letificantes.Sua
vida era de um verdadeiro filósofo, e, como tal, impossível é
separar-se seu pensamento de seu modo de agir.Era de uma capacidade de trabalho
extraordinária, madrugador e rigoroso nos horários. Só recebia
seus convidados se estes fossem rigorosamente pontuais.Filósofo não
por conhecer as doutrinas que se forjaram, mas porque amava a sabedoria. Era um
bibliófilo. As corujas que colecionava com carinho, a biblioteca cheia
de preciosidades, eram fiéis testemunhas do seu amor à sabedoria
e preocupação na preservação da cultura como vitória
sobre o efêmero e sobre a morte física.



