PROSA

I SABEDORIA DOS INSTINTOS
......


II - AFORISMOS ESPARSOS

DESCOBERTA
O maior descobridor é o que pode dizer, depois de haver naufragado na vida comum: "achei-me!". Efetivamente, nada mais difícil do que ser batel perdido... e encontra-se, a seu "eu", no alto oceano da vulgaridade.

MORAL
Deviam os homens simplificar a moral. Existem princípios que nada valem. São suficientes o dever social, moral e consciente, e a afeição, moral espontânea. No sentimento do dever social esta toda uma moral prática, útil, divisível; no sentimento afetivo, toda uma moral própria, uma, criadora. Ninguém melhor o disse do que, há séculos, o Cavaleiro de Oliveyra: "Hum coração que sabe amar, não sabendo outra coisa, sabe tudo"


Chega o homem ao grau definitivo de superioridade quando pode elevar-se acima da sua própria fé.

EU
Ainda não estou convencido de que à unidade verbal corresponda sempre a unidade de imagem, - nem mesmo à palavra "eu". E esta penosa dúvida por vêzes nos envergonha ... pelo pudor de nos vermos penetrados pelas coisas. Felizmente, eu sei curar-me dos meus pudores. Em meu castelo de silêncio, as janelas vivem abertas aos embates dos tempos modernos, mas as portas não abrem ... e lá dentro há fantasmas lendários que me defendem.

LEITORES
Feliz o autor que encontra três leitores sábios, - Os bons livros são aquêles em que se nos depara um pouco para todos, ao passo que o livro forte é o em que cada um se encontra a si mesmo. Espiritualmente, cinco mil leitores para nós outros nada valem. É grave prejuízo para o escritor que cêrca de cinco mil medíocres se encontram nêle.

OCULTAÇÃO
Há raças que se escondem por algum tempo. As vêzes, certos povos, como certos indivíduos, se enclausuram em suas tôrres, para que possam dar um passo à frente. E aí está prova de que o progresso, sucessão seletiva de fatos, não se faz lá fora, qual o crêem, e pouco tem que ver com os mercadores e os garotos da rua. O progresso é único aparelho que não precisa de espaço para mover. Chez moi, chez les dieux.

BEM E MAL
É negativa a educação humana: em vez de ensinar as crianças a viver, fazendo o bem, ensina-lhes a não fazer o mal; de modo que, mais tarde, se tornam terríveis, porque o aprendem por si.

DESNÍVEIS
A sociedade inutiliza homens porque praticam pequenos crimes, atentados superficiais, pequeninas misérias. Para que neutralizar, pela violência das leis, tais indivíduos? Os mais dêles possuem virtudes raras, que talvez façam falta à organização geral. Foram produtos reais - quiçá necessários: e só a artificialidade política os excluiu da luta do cadinho infernal da vida quotidiana. Quisera lembrar aos organizadores e aos reformistas o "auch das Unnatür-lichste ist Natur" de Goethe e o que sabiamente dizia Mme de Rémusat: "On n'est jamais uniquement ce qu'on est surtout".

ORGULHO
O maior argumento que se invoca e se sustenta contra o orgulho é que todos têm de acabar no mesmo campo-santo. É a unidade social dos cemitérios. Mas nisso há ilusão; dizer que todos acabam iguais é mentira ou impostura; a morte não faz iguais, - desfaz; não nivela, - destrói. Todos deixam de ser a mesma coisa: uns deixam de ser grandes, - outros, pequenos.

SINCERIDADE
Raríssimos são os livros em que se poderia escrever: "a alma à flor dos lábios". A produção de livros aumenta na razão direta da insinceridade.

SEXO
Sempre incoerentes. Os homens: vivem a exigir da mulher o que não exigem a si mesmos. - fidelidade. Uma de duas: ou julgam as mulheres superiores a eles, pois que as consideram capazes de algo além do homem; ou têm por virtude inferior a fidelidade. Em todo caso, ninguém os compreende.

VIVER
Lastimam-se alguns indivíduos por sentirem pesado o fardo da vida. Mas nem por isso deixam de correr com ele.

ESCADAS
Quando algum dia deixarem de existir as "posições", ricos e pobres sentirão saudades: os grandes porque o não seriam mais, e os pequenos porque o queriam ser.

INTERIOR E EXTERIOR
Uma coisa não é hedionda porque o seja em si, mas porque o é nos outros. Se disserdes: "aquela mulher é antipática", mais seguro será entender-se que julgais assim. É a nossa opinião que faz o belo e o feio. Também o mundo é grande porque nós somos pequenos.

ESTILO
Não emendes a "tua" frase, nem lhe dês formas alheias. As boas idéias surgem como os cristais: com os seus contornos. Se a vais limar à pedra da tua vontade, perderá o brilho, a extravagância e as luzes. Deixa-a como está: mais vale o coral bruto do que o diamante falso que se lapida.

TENTAÇÃO
Não sei qual o seja mais perdido: se o homem que resistiu à tentação, ou se o outro que se deixou vencer. Ao contrário do que em geral se pensa, parece mais fraco o primeiro: foi tentado por uma coisa tão insignificante, ou tão profunda, que não percebemos. Daí a filosofia mais exata da vida: os homens são sempre tentados.

DIRETRIZES
Os homens crêem na justiça, como se eles fossem justos pelo gosto de o ser. Enganam-se: é sempre necessário boa-vontade para que haja justiça, como a verdade, deusa de igual porte, precisa de espíritos exatos que a reconheçam.
Tanto dependem das baixezas as grandes coisas!

CELEBRIDADE
Quando um a homem começa a ser célebre o público principia a desfigura-lo, como se dissesse aos críticos: "êste boneco é meu: visto-o como bem me apraz".

DESVIO
Nem sempre nos serve a razão. Às vezes é a causa principal de nosso fracasso: desvia-nos do nosso caráter...

VONTADE E LEI
Os Teóricos da política erram sempre: julgam que a boa lei é a que todos eles querem. Não conhecem a natureza humana, estes perluxos ! Os que a compreendem, usariam, no caso deles, de outros meios: diriam sempre "não" quando todos pedissem. Seria o melhor recurso para acertar: pelo menos de não errar... com eles...

DADOS
Há homens naturalmente jogadores. Amam o azar, o engano metafísico a Sorte. Para eles as quedas sociais são simples efeitos de mau acaso; e as conquistas, simples golpes acertados. Na primeira hipótese, sofrem pelo desgosto íntimo de si mesmos, a fobia incurável dos descontentes; e na segunda, mal se percebem, anônimos, nas ondas fluxas dos acontecimentos: rolam...

FONTE
Já vi um louco que pretendia esgotar um veio de água. Enchia os jarros e enxugava a pedra com um trapo. Mal acabava,a água irrompia, a reencher o tanque. Assim os anarquistas: matam os ministros... mas a fonte não se acaba. E não compreendem isso, os idiotas!

ESCOLHA
A maior das razões que se à infelicidade conjugal é o hábito frívolo de pelo rosto se escolherem as mulheres. Fazer depender uma união do simples conhecimento exterior do semblante é quase o mesmo julgar um quadro célebre pelo caixilho de ouro que o emoldura.

SOCIEDADES E VERDADES
Em todas as sociedades, por mais anárquicas que estejam, há sempre um centro de fôrça, ponto resultante e ao mesmo tempo inicial de todas as energias de resistência, como existe, para os corpos físicos, o centro de gravidade. Portanto, mesmo nas democracias, há um poder uno, central, às vezes invisível, que tanto pode ser um preconceito ou um princípio, quanto a simples vontade mais ou menos restrita de um indivíduo. Nós outros preferimos a soma atual das verdades humanas.


III - PALAVRAS SEMPRE SINCERAS

DIRETRIZES
Os homem crêem na justiça, como se eles fossem pelo gosto de o ser. Enganam-se: é sempre necessário boa-vontade para que haja justiça, como a verdade, deusa de igual porto, precisa de espíritos exatos que a reconheçam.
Tanto dependem das baixezas as grandes coisas!

CELEBRIDADE
Quando um homem começa a ser célebre o público principal a desfigurá-lo, como se dissesse aos críticos: "êste boneco é meu; visto-o como bem me apraz".

DESVIO
Nem sempre nos serve a razão. Às vezes é a causa principal de nosso fracasso: desvia-nos do nosso caráter...

VONTADE E LEI
Os teóricos da política erram sempre: julgam que a boa lei é a que todos êles querem. Não conhecem a natureza humana, êstes perluxos! Os que a compreendem, usariam, no caso dêles, de outros meios: diriam sempre "não" quando todos pedissem. Seria o melhjor recurso para acertar: pelo menos de não errar.... como êles...

DADOS
Há homens naturalmente jogadores. Amam o azar, o engano metafísico a Sorte. Para eles as quedas sociais são simples efeitos de mau acaso; e as conquistas, simples golpes acertados. Na primeira hipótese, sofrem pelo desgosto íntimo de si mesmos, a fobia incurável dos descontentes; e na segunda, mal se percebem, anônimos, nas ondas fluxas dos acontecimentos: rolam...

II SABEDORIA DA INTELIGÊNCIA

I - CONHECER

RAZÃO E CONHECER
Conhecimento e racional não são correlatos.
Verticalmente, isto é no sentido de altura, o conhecimento excede a razão, porque começa abaixo do ponto em que surge e vai talvez - quem sabe? - depois daquele em que ela acaba.
Horizontalmente, o racional ultrapassa o conhecimento, porque, no seu vôo, perde de vista a terra firme dos fatos e ata mesmo os cimos enevoados e longínquos do pálido real que ainda poderia ser objeto do conhecimento.

II - DIRIGIR-SE

RISO E VULGARIDADE
O que ri vulgariza-se. Para que o riso não degrade é mister que encubra a ironia, atenue a frieza da serenidade, ou seja a flor vermelha e fresca que absurdamente se interpõe entre ramos e frutos de Sabedoria e de Tristeza. O Sábio não ri, senão quando em tudo que lhe vai na alma o menos importante é o riso.

ARTIFICIALIDADE E DEMOCRACIA
O nosso horror do artificialismo deve inspirar-nos a energia suficiente para exigirmos, não a simples forma democrática, com que se pode enganar o espírito público, mas a função democrática, que é a concretização de um plano, em vez da frívola mudança de vestes públicas. Pela primeira vez, em lugar do mel mirífico das palavras e dos princípios, a humanidade tem sede de Real.

JUSTIÇA
Já não nos satisfaz, a nós, homens contemporâneos, a justiça transcendental das teocracias, nem, tão-pouco, a justiça abstrata, vaga, irreal, da filosofia racionalista, que chegou ao auge na Revolução e inundou o mundo. Porque esta é vazia como os princípios em que se funda e pode encher-se do bem e do mal, do justo e do injusto, indiferentemente.
Queremos nós justiça concreta, social, verificável e conferível como fato, a justiça que se prove com os números das estatísticas e com as realidades da Vida. E a esta sòmente se chega pelo caminho das verdades científicas - penosamente, é certo, mas a passos firmes e de mãos agarradas aos arbustos da escarpa, para os esforços do avanço e a segurança da escalada.

 


POESIA


I - INSCRIÇÕES DA ESTELA INTERIOR

COFRE

Eu guardei
neste cofre
todas as pedras do meu Destino espiritual.
Fechei-o

Queres vê-las?
Abre-º Mira-as
Rola em tuas mãos as vivas esmeraldas
e o sangue quente dos rubis,
o meu sangue.

Mas teme que neles fiquem
as imagens breves dos teus dedos.
O meu Destino encantatório
pode prender-te nas imagens que deixares,
tôda a tua Alma,
todo o teu Destino.

Será melhor nas pedras não tocares
do feiticeiro espiritual.

AMOR E ÓDIO

Esculpe
o teu mármore
pacientemente.

Mói,
iluminadamente,
as tuas tintas,
e cria o teu jardim,
o teu secreto Universo.

Burila
a tua idéia
e deixa escorrer,
melodiosamente,
o teu verso.

E segue o teu caminho,
vendo, sem ver, de um lado e de outro,
a estima das gentes.
Tu a podias colher,
mas não é isso
o que tu queres.

Continua o teu passo.
Despreza a grandeza
que depende dos homens,
o amor que não te entende,
o ódio
que te entendeu demais.


SENTIR

Levanta o teu olhar,
deixa que o teu pensamento vá mais longe que os teus olhos.
visite o mar
que não visitaste,
ouça rumor de onda que nunca ouviste,
veja espuma, baias, vastidão, abrolhos,
que nunca em tua vida viste.

(Como é bom que sejas assim
e te percas, voluntariamente, pelo espaço sem fim!
Voltaste?)

Volta, aberta avelã à umedecente aragem.
Deves ter cansados de visões os olhos doloridos,
e doente de fantasias a tua Alma desenrolada na viagem.
(Apalpa a forma que te espreita,
ouve a natureza simples que te contradiz,
deita-
-te no gramado das realidades aparentes,
e para as novas viagens longínquas e impenitentes,
Homem faminto de ser feliz,
Cura a tua Alma com os teus Sentidos.)
.

 

Textos extraídos de "OBRAS LITERÁRIAS PROSA E POESIA",
de autoria do jurista Pontes de Miranda, em 1960,
pela Livraria José Olympio Editora.