A
Carta de Pontes foi encontrada por um colecionista de antiguidades Ramão
Costa, em Pelotas no Rio Grande do Sul no acervo de Fernando Luis Osório,
neto do General Osório e foi adquirida pelo Sebojuridico, onde ficará
em exposição.

Ilustre confrade D. Fernando Luís Osório
Respeitosas saudações.
Somente agora, passados tantos meses,
posso escrever-lhe sobre os seus tão nítidos e brilhantes artigos
publicados nesta bela cidade, em que tanto simpatizo, pelo que dela ouço
e gabam.
Fico-lhe muito agradecido pelo obséquio de divulgar as idéas
do Systema; e tenho grande prazer em comunicar-lhe que está prompto outro
trabalho, de caráter urgente porque não há momento mais propício
para discussão de idéias em que este em que vivemos, no mundo e
no Brasil. O título é Introducção á Política
Scientífica ou os fundamentos da Sciência Positiva do Direito, cujos
capítulos pensei em lê-los em conferências nos Estados, afim
de podermos fundar no Rio uma revista scientífica-política, para
a qual os problemas nacionais fossem vistos com olhos claros e não com
os olhos turvos da politicagem. Mas, com uma porção de obrigações,
agravados com uma recente viagem ao Chile, não tive incentivo para isto.
O meu plano seria começar pelo Sul, pelo Rio Grande, ao dar um curso publico
de política scientifica e a ferir certos pontos da vida nacional e dos
seus gravíssimos problemas. Mas, - homem pobre, para quem do as exigências
da sua biblioteca á qual nada recuso e tudo sacrifico, irrelevante de tuas
viagens, - senti-me medroso de abalançar-me á empresa ententei-me
com a divulgação em livro. Agora mesmo, porém, ao escrever
a presente, sinto que devia fazer tal percurso, ainda que constituísse
grande sacrifício pessoal. Então começaria de Pelotas.
Agradeço o seu livro cívico, tão bem feito, tão útil,
vem cheio daquela visão brasileira, que nos dá otimismo, em vez
do cepticismo doentio dos que em lugar de fatos/históricos, vêem
acidentes superficiais. Depois, dar-lhe-ei conto do que li e do que me sugeriu.
Não leve a mal a demora em responder sua carta: absorveu-me o livro de
que falei e só fui senhor de mim quando acabei. Está pronto, e ainda
não cogitei de editar, porque desejava antes fazer as conferências,
e se delas me saísse bem, fundar a Revista, necessidade inadiável,
para a reeducação nacional, com a sede no Rio e com dois representantes
nos Estados, mas só admitindo interpretações e críticas
scientíficas dos fenômenos sociais. O Rio é estéril;
não há civismo, nem apoio à idéias; daí a unicaracterização
do Brasil atual, - a sua capital é incolor, intelectualmente amorfa, tímida
e fútil.
Escreva-me para a Rua 20 de novembro, n. 53 (Ipanema, Rio
de Janeiro), mas como velho amigo, e não cerimoniosamente; recebo com todo
o jubilo a sua amizade pessoal e, mais do que tudo, o seu apoio às idéias
que tenho, com todo entusiasmos e convicção, por verdadeiras e salutares.
Vêem elas o lado universal , scientífico; mas tem igualmente o lado
nacional, o lado brasileiro, - e nós todo precisamos fazer alguma coisa
pelo Brasil, cujo futuro depende dos homens de 1923-1928. Se nestes cinco anos
não se remodelar a mentalidade nacional teremos, de certo, dias horríveis
e talvez sacrifiquemos os nossos destinos.
Creia na simpatia, no apreço
e na afeição de
Pontes de Miranda
O Memorial agradece ao Professor
Paulo JB Leal pela reprodução encaminhada.