A Carta de Pontes foi encontrada por um colecionista de antiguidades Ramão
Costa, em Pelotas no Rio Grande do Sul no acervo de Fernando Luis Osório,
neto do General Osório e foi adquirida pelo Sebojuridico, onde ficará em exposição.

Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1923.

Ilustre confrade D. Fernando Luís Osório


Respeitosas saudações.
Somente agora, passados tantos meses, posso escrever-lhe sobre os seus tão nítidos e brilhantes artigos publicados nesta bela cidade, em que tanto simpatizo, pelo que dela ouço e gabam.
Fico-lhe muito agradecido pelo obséquio de divulgar as idéas do Systema; e tenho grande prazer em comunicar-lhe que está prompto outro trabalho, de caráter urgente porque não há momento mais propício para discussão de idéias em que este em que vivemos, no mundo e no Brasil. O título é Introducção á Política Scientífica ou os fundamentos da Sciência Positiva do Direito, cujos capítulos pensei em lê-los em conferências nos Estados, afim de podermos fundar no Rio uma revista scientífica-política, para a qual os problemas nacionais fossem vistos com olhos claros e não com os olhos turvos da politicagem. Mas, com uma porção de obrigações, agravados com uma recente viagem ao Chile, não tive incentivo para isto. O meu plano seria começar pelo Sul, pelo Rio Grande, ao dar um curso publico de política scientifica e a ferir certos pontos da vida nacional e dos seus gravíssimos problemas. Mas, - homem pobre, para quem do as exigências da sua biblioteca á qual nada recuso e tudo sacrifico, irrelevante de tuas viagens, - senti-me medroso de abalançar-me á empresa ententei-me com a divulgação em livro. Agora mesmo, porém, ao escrever a presente, sinto que devia fazer tal percurso, ainda que constituísse grande sacrifício pessoal. Então começaria de Pelotas.
Agradeço o seu livro cívico, tão bem feito, tão útil, vem cheio daquela visão brasileira, que nos dá otimismo, em vez do cepticismo doentio dos que em lugar de fatos/históricos, vêem acidentes superficiais. Depois, dar-lhe-ei conto do que li e do que me sugeriu.
Não leve a mal a demora em responder sua carta: absorveu-me o livro de que falei e só fui senhor de mim quando acabei. Está pronto, e ainda não cogitei de editar, porque desejava antes fazer as conferências, e se delas me saísse bem, fundar a Revista, necessidade inadiável, para a reeducação nacional, com a sede no Rio e com dois representantes nos Estados, mas só admitindo interpretações e críticas scientíficas dos fenômenos sociais. O Rio é estéril; não há civismo, nem apoio à idéias; daí a unicaracterização do Brasil atual, - a sua capital é incolor, intelectualmente amorfa, tímida e fútil.
Escreva-me para a Rua 20 de novembro, n. 53 (Ipanema, Rio de Janeiro), mas como velho amigo, e não cerimoniosamente; recebo com todo o jubilo a sua amizade pessoal e, mais do que tudo, o seu apoio às idéias que tenho, com todo entusiasmos e convicção, por verdadeiras e salutares. Vêem elas o lado universal , scientífico; mas tem igualmente o lado nacional, o lado brasileiro, - e nós todo precisamos fazer alguma coisa pelo Brasil, cujo futuro depende dos homens de 1923-1928. Se nestes cinco anos não se remodelar a mentalidade nacional teremos, de certo, dias horríveis e talvez sacrifiquemos os nossos destinos.
Creia na simpatia, no apreço e na afeição de

Pontes de Miranda

 

O Memorial agradece ao Professor Paulo JB Leal pela reprodução encaminhada.